Um dos taxistas há mais tempo em atividade na capital paulista, de acordo com o sindicato da categoria, Fernando Pinto Madureira, de 81 anos, afirma que o remédio para conviver com o trânsito da cidade é a paciência.
"Eu entro no carro e não me preocupo com nada. O trânsito não me deixa irritado. Quem fica irritado é o cliente. Eu não. O que adianta me irritar? Não vai adiantar nada mesmo", conta ele.
Sobre o Dia Mundial Sem Carro, comemorado nesta terça (22), diz considerar a ideia "legal", mas afirma que "nada muda" na cidade. "Nos outros anos, nada mudou. Tem o Dia Sem Carro, mas a cidade fica igual, nada muda. Seria legal se todo mundo fosse trabalhar de bicicleta ou a pé, mas não vai, né?"
Fernando Madureira diz trabalhar menos atualmente, "alguns dias na semana por poucas horas". "Já trabalhei muito no táxi. Muitas vezes mais de 15 horas por dia. Agora, estou mais devagar."
O taxista diz que, atualmente, os congestionamentos atrapalham a vida de quem trabalha na rua. "Da Praça da Árvore à Praça da Sé era uns 20 minutos nos anos 70. As coisas foram mudando aos poucos, devagarzinho. Agora, esse percurso a gente faz às vezes em uma hora ou mais."
Mas Madureira, que começou na profissão aos 24 anos e afirma já ter rodado 2,2 milhões de quilômetros – cerca de 55 voltas ao mundo -, avalia que algumas coisas também melhoraram. "Era tudo esburacado, o carro vivia quebrando demais. Antes era bonde para todo lado, hoje são as motos que atrapalham."
"No meu tempo, não tinha Marginal Pinheiros nem Tietê, Radial Leste, a Rua Consolação era estreita, não tinha 23 de Maio, a Avenida Santo Amaro era toda de lama. A gente chegava a ficar atolado."
Outra vantagem de hoje em dia, conta ele, é que o lucro dos taxistas aumentou.
"Hoje ainda é pouco, mas é melhor. Quando Jânio Quadros era prefeito (último mandato, no final da década de 80), a quilometragem do taxi começava zerada e só virava um quilômetro depois. Os caras se estapeavam pelo táxi, tinha bastante trabalho, mas pouco lucro. Isso melhorou."
O taxista conta que sofreu dois momentos de estresse no trânsito, ambos há mais de 20 anos, mas não por conta de congestionamentos. Em 1971, foi assaltado e levou dois tiros. Em 1988, teve o carro levado por bandidos, mas o veículo acabou encontrado pela Polícia.
"Depois disso, eu fiquei assustado, tinha medo de todo mundo que entrava no taxi. Depois de um tempo, passou."
Um dos momentos mais marcantes, lembra Fernando Madureira, foi quando carregou um ídolo em seu taxi. "Ele estava sentado no banco de trás e ficava mexendo a cabeça assim (seu Fernando imita). Deixei ele e quando percebi era o Golias (humorista Ronald Golias, morto em 2005) ."
Questionado sobre como acha que o trânsito da cidade estará em 57 anos, ele respondeu sorrindo: "Ah, minha filha, não vai andar mais não. E não precisa desse tempo todo. Mais uns cinco anos do jeito que está não anda mais."
Diz que a aposentadoria que recebe não é suficiente e, portanto, precisa continuar a trabalhar para complementar a renda.
"Me aposentei com seis salários mínimos. Foi desvalorizando e hoje ganho três. Pago o condomínio, seguro de saúde, conta de luz e acabou. Tenho que trabalhar para comer. Acho que vou trabalhar até morrer", ironiza o taxista.
Fonte: G1
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