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30/09/2009

Estudo comprova a eficiência dos redutores de velocidade


Os redutores eletrônicos de velocidade (REVs) reduzem, em média, 35% o número de acidentes e fatalidades em estradas. Este é um dos dados do estudo realizado pela economista Daniela Ornelas sobre o impacto das políticas públicas na redução de acidentes e fatalidades de trânsito no Brasil. A pesquisa considerou dados de 1996 a 2005 e é o único estudo realizado no país a respeito da eficiência dos REVs. A convite da Perkons S/A, Daniela estará em Curitiba nos dias 29 e 30 de setembro para participar do 17º. Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito, quando apresentará os resultados detalhados do seu estudo. Confiram a entrevista exclusiva que a economista concedeu ao site da Perkons S/A.

Você realizou um estudo aprofundado sobre as políticas públicas adotadas no Brasil para a redução de acidentes e fatalidades no trânsito. Quais foram as principais conclusões do seu estudo? As políticas públicas brasileiras neste setor são ou não são eficientes?

No estudo, analisei a eficácia de três políticas públicas na redução dos acidentes e fatalidades de trânsito nas rodovias federais dos 27 estados brasileiros entre 1996 e 2005: a introdução do Código de Trânsito Brasileiro de 1998, a privatização das estradas federais e a introdução dos redutores eletrônicos de velocidade (REVs). Os resultados encontrados sugerem que as três políticas públicas em questão, particularmente a implementação dos REVs, foram eficazes, reduzindo significativamente o número de acidentes e fatalidades de trânsito nas rodovias federais do País no período analisado.

Um dos resultados encontrados pelo seu estudo é a eficiência do uso de equipamentos eletrônicos de controle e fiscalização de velocidades. Quais os principais dados que comprovam essa eficiência?

Os resultados da análise empírica sugerem fortemente que a implementação dos REVs reduziu tanto o índice de acidentes quanto o índice de fatalidades de trânsito nas rodovias federais. Por exemplo, em 2004 os REVs foram responsáveis por uma redução superior a 9 mil acidentes e a mil fatalidades de trânsito nos 14 estados que apresentam REVs instalados nas rodovias federais.

Para chegar a esses resultados, realizei uma análise econométrica detalhada do efeito dessas políticas sobre o índice de acidentes e fatalidades de trânsito no Brasil. Na análise, estimei os modelos econométricos controlando para as caracterísiticas de cada estado. Isso permite isolar todas as características que são específicas de um estado e que não variam ao longo do tempo, mas que podem afetar o número de acidentes e fatalidades em uma determinada região como, por exemplo, o clima e relevo. Além disso, controlei também para outras variáveis que podem afetar o número de acidentes e fatalidades de trânsito em cada estado, como a qualidade das estradas, a educação da população e o PIB estaduais.

Ao isolar todos esses fatores, consigo estimar o verdadeiro efeito dos REVs, da privatização e do Código de 1998 sobre acidentes e fatalidades. Caso essas técnicas estatísticas não fossem utilizadas, encontraríamos resultados viesados e, portanto, não verdadeiros.  Por exemplo: entre os anos de 2000 e 2001 no estado de Minas Gerais o número de acidentes nas rodovias federais reduziu-se de 20.879 para 18.709. Nesse mesmo período, o número de REVs instalados no estado passou de 19 para 33. Analisando de uma forma direta, tenderíamos a atribuir essa redução ao aumento do número de REVs instalados. No entanto, a queda do número de acidentes em Minas Gerais pode ser consequência também de outros fatores, como a melhoria da qualidade das estradas ou o aumento do grau de escolaridade dos condutores. Isolando todos esses fatores, consigo obter separadamente o efeito de cada uma desses varíaveis sobre o índice de acidentes, sem subestimar ou superestimar o efeito dos REVs ou de outras variávies sobre o índice de acidentes no estado.

Em contraposição às estatísticas que apontam a redução no número de mortes e acidentes de trânsito, a instalação de equipamentos eletrônicos de controle e fiscalização de velocidade sempre merece a crítica dos motoristas e, especialmente, dos movimentos políticos de oposição às administrações públicas que decidem adotá-los. Você consegue apontar as razões para tanta reação negativa a algo que traz resultados positivos?

O meu trabalho não permite que responda esse tipo de questão. No entanto, acredito que a oposição a essas políticas por parte dos motoristas seja consequência de fatores como o pagamento de multas e a pontuação na carteira de habilitação, no caso de infração a lei. Talvez um fator mais importante seja a falta de estudos permanentes no Brasil que mostrem a evolução e os benefícios gerados por essas políticas. O efeito positivo dos REVs é algo que ainda não é muito claro para grande parte da população.  Embora alguns talvez imaginem que esses aparelhos possam proporcionar maior segurança no trânsito, as pessoas desconhecem exatamente o efeito preciso de viajarmos em uma estrada que possui REVs instalados. No entanto, se perguntarmos a um condutor sobre o efeito negativo dos REVs, a resposta imediata será o ônus da multa e pontuação na carteira. De fato, na Inglaterra inicialmente havia muita resistência da populacão aos REVs. Atualmente, essa resistência reduziu-se muito possivelmente em função dos estudos que mostram os benefícios gerados por esses aparelhos.

Você possui dados comparativos com os outros países que revelem o grau de eficiência dos equipamentos eletrônicos usados no Brasil?

De acordo com a edição de maio 2004 do jornal do “Parliamentary Office of Science and Technology”, o número de fatalidades ou pessoas seriamente feridas reduziu-se em 35% na Inglaterra em áreas onde se tem câmeras instaladas. Segundo essa mesma fonte, a implementação de câmeras que autuam os condutores em excesso de velocidade na Austrália reduziu em 36% o número de acidentes e em 74% o número de fatalidades de trânsito em áreas com câmeras.

Seu estudo calculou o quando o País deixa de perder em recursos financeiros com a redução de mortes e acidentes provocada pelos equipamentos eletrônicos de controle e fiscalização de velocidade?

No estudo não calculo esses valores, mas tenho planos de fazer essa análise no futuro, caso obtenha financiamento para tanto.

Na sua avaliação, falta ao Brasil estudos permanentes de monitoramento dos resultados das políticas públicas, especialmente na área de trânsito?

Absolutamente. O acompanhamento dos efeitos das políticas implementadas ao longo do tempo por meio de estudos econométricos que façam uma análise profunda dos efeitos dessas politicas na área de trânsito é essencial para que se saibam quais políticas têm e quais não têm os resultados almejados. Isso permitiria que os ajustes necessários fossem feitos para uma maior eficácia das politicas. Quando iniciei meu estudo, foi com grande surpresa que percebi que não havia nenhum estudo técnico disponível sobre o tema! 

Quais as maiores dificuldades que você enfrentou para elaborar esse estudo?

A maior dificuldade que enfrentei foi a construção do banco de dados. Para o tipo de análise que me propunha, a construção de um banco de dados com fontes confiáveis era imprescindível. Felizmente, após uma série de contatos, obtive os principais dados com o Departamento de Estatistica da Polícia Rodoviária Federal, em Brasília. No entanto, não consegui obter certos dados que considerava importantes para sofisticacão da minha análise, seja pela ausência desses dados, seja pela falta de retorno por parte das fontes contactadas. 

Na sua opinião, quando o estudo deve ser refeito para manter sua atualidade?

O último estudo realizado foi feito por mim em 2007. Creio que a análise deveria ser refeita anualmente. Atualizando os dados podemos verificar se essas politicas continuam eficazes ao longo do tempo, alterando-as case necessário. Os REVs, por exemplo, estão desativados nas rodovias federias do País desde outubro de 2007 devido a atrasos de licitação do serviço. Um estudo para avaliar a magnitude do efeito da interrupção dessa medida sobre o número de acidentes e fatalidades de trânsito nas rodovias federais do Brasil é essencial para que se compare seus custos e benefícios. Tenho grande interesse em desenvolver essa análise no futuro próximo e espero fazê-la, caso obtenha financiamento.

Para finalizar, por que uma economista interessou-se pelo trânsito? 

Economistas devidamente treinados possuem uma vantagem na elaboração de estudos como esses por dominarem a técnica necessária. A idéia de avaliar a eficiência dos REVs surgiu de uma curiosidade prática. Entre 2005 e 2007, realizei com frequência várias viagens de carro entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No percurso, algo que me chamava a atenção era a quantidade de REVs instalados nas rodovias federais.  Considerando isso, passei o questionar se esses instrumentos realmente funcionavam ou se tinham apenas um caráter arrecadatório. Nesse período, estava realizando o mestrado em economia no IBMEC/RJ e, então, optei por desenvolver a minha tese sobre o assunto.

Fonte: Paranashop









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