Fonte: Diário do Pará
Enquanto uma infinidade de carros enfileirados faz o tempo passar mais lento, Aline Alves, 23 anos, saca o MP3 player e ouve música, lê manuais relacionados ao seu trabalho de analista de vendas, dorme um pouquinho. Ela, que reside no Conjunto Maguari, em Icoaraci, e trabalha em um shopping no centro da cidade, já se habituou a gastar quase quatro horas do seu dia dentro de um ônibus. “Antigamente eu gastava cerca de 40 minutos para chegar até o centro. Hoje, levo até uma hora e 40 minutos para fazer o mesmo percurso. Só ali no entroncamento, naquela rotatória entre a Augusto Montenegro, a Almirante Barroso e a BR-316, às vezes fico presa por meia hora. Um verdadeiro caos”, desabafa.
Reclamações como as de Aline se tornaram comuns para quem vive em Belém e conhece a realidade atual do trânsito. Vias congestionadas, buzinaço, atrasos. Quem se aventura a enfrentar as ruas nos horários de pico, precisa de paciência. “Eu já nem almoço em casa pra evitar mais chateação”, conta ela.
Contudo, para o diretor de trânsito da Companhia de Transportes de Belém (CTBel), coronel Joaquim Souza, dizer que o trânsito em Belém é caótico não passa de um exagero. “Não existe caos no trânsito em Belém. Essa expressão foi criada pela imprensa, é sensacionalismo”, protesta, tentando justificar: “Há situações às quais qualquer grande cidade está propensa. A avenida Almirante Barroso, por exemplo, é a principal via da cidade, já que atravessa os principais bairros. Mas qualquer interrupção na BR-316 interfere no seu fluxo de veículos. Nada mais natural que fique congestionada eventualmente. Em São Paulo, por exemplo, há situações em que os veículos ficam parados por horas”.
EXCESSO DE VEÍCULOS
Para Joaquim, o aumento da frota de veículos em Belém é a principal causa do problema que já se convencionou chamar de caos. “Belém é uma das capitais brasileiras que mais apresentaram aumento da frota. Apesar desse crescimento – muito acima da média nacional – o seu sistema viário não acompanhou essa dinâmica”. Ele se refere à pesquisa realizada pelo Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), que apontou a média de 3,4% em relação ao crescimento da frota nas cidades brasileiras em 2008, sendo que Belém registrou 12%. Já no primeiro quadrimestre de 2009, segundo a pesquisa, a média nacional foi de 0,7% e a de Belém foi de 3,1%.
“O problema não é a quantidade de veículos nas ruas, mas sim a falta de planejamento. O trânsito de Belém vive de trabalhos pontuais há 20 anos”, rebate o engenheiro de trânsito Evanildo Oliveira, professor de Tráfego e Transporte em uma universidade pública de Belém. “São vários problemas, que, combinados, resultam nesta constante situação de risco tanto para motoristas quanto para pedestres”.
Para o engenheiro, a implantação de um terminal de cargas na capital ajudaria a atenuar o problema. “Carretas de 20, 30 toneladas ocupam um espaço equivalente a quatro carros pequenos, e têm disputado espaço viário com os automóveis nas principais vias de Belém, diariamente. Os carros de transporte de bebida, por exemplo, ainda trabalham sob o sistema porta-a-porta”.
Ele destaca ainda a necessidade de planejar melhor a sinalização vertical em Belém. “Falta programação em termos de cruzamento semaforizado. O motorista pega um sinal vermelho aqui e outros dois lá na frente. Não há fluidez no tráfego e isso também é um fator gerador de engarrafamentos”.
Para tentar resolver o problema dos congestionamentos, a CTBel diz trabalhar com um plano estratégico no qual Belém está dividida em cinco grandes regiões. “Cada área tem um inspetor, que apoia e fiscaliza a atuação dos agentes. É um monitoramento diário, para dar a resposta imediata diante de qualquer tipo de problema que possa surgir”, explica o diretor de trânsito. Segundo ele, são registrados de 25 a 30 acidentes de trânsito por dia na região metropolitana, que causam impacto e interferem sobremaneira na fluidez do tráfego.
O DIÁRIO tentou obter um mapa dos engarrafamentos na Grande Belém com a CTBel, mas a assessoria de comunicação do órgão alegou que “não conta com tecnologia necessária para afirmar estes dados com precisão”. Diante disso, o Diário Online foi às ruas, entrevistou motoristas e montou um mapa com base nos depoimentos.
O taxista Regis Augusto Borges, 40, já se acostumou a dirigir guiado pela impaciência e as insistentes queixas vindas do banco de trás. “Eles dizem que estão com pressa, que estão atrasados, pedem pra que a gente pegue atalhos, vias alternativas”, conta. “Mas que atalho, se praticamente todas as ruas estão congestionadas?”, questiona. “Às vezes dá vontade de parar e ir pra casa”
De fato, quem vive do trânsito em Belém não poupa reclamações sobre a atual situação da capital paraense. José Maria da Silva, 54 anos, motorista particular há 30, diz que nunca foi tão difícil manter-se calmo atrás de um volante. “Tem muito carro na cidade, muita gente dirigindo sem responsabilidade, que dobra e ultrapassa sem dar sinal. O transporte alternativo, essas tantas vans e ônibus, ajudam a tumultuar ainda mais o trânsito”, conta José, que aponta o Entroncamento como principal ponto crítico em Belém. “O ideal seria a construção de um viaduto ali, aquela obra complicou tudo, piorou tudo”. A opinião também é compartilhada pelo taxista Wenderson Campos de Souza, 28 anos.
“Hoje tem taxista que se nega a levar passageiro para aquelas bandas depois das 17h”, conta. “Aumentam os gastos com combustível, tem o ar-condicionado que vai ligado durante todo o percurso, e mais a pressão do passageiro, que quer chegar logo”. Ele, que reside na Cidade Nova, em Ananindeua, sai de casa todo dia às 6h e chega às 8h no ponto de taxi onde trabalha, localizado na travessa Lomas Valentinas. “Fora de horário de pico gasto apenas 30 minutos no mesmo trajeto”.
A rotatória do Entroncamento, aliás, é campeã de reclamações quando o assunto é congestionamento na região metropolitana de Belém. De acordo com Joaquim Souza, a Ctbel trabalha segundo um esquema especial para aquela região. “Nos horários mais críticos, como pela manhã e ao final da tarde, são colocados cones de sinalização na área e posicionadas viaturas e agentes, responsáveis por movimentar a fluidez do tráfego. Aquela rotatória é um grande erro de concepção, de engenharia. Agora só nos resta tentar contornar as conseqüências”, critica.
Procurada para comentar o assunto, a Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb) lamentou a existência do problema. “Essa obra foi iniciada ainda no governo Edmilson. Infelizmente, como já tinham sido investidos milhões não tínhamos como não executá-la. O Pórtico Metrópole deve amenizar o engarrafamento, com a retirada da sinalização na saída do túnel”, alegou, por telefone, a assessoria de comunicação do órgão.
Trata-se de uma obra formada por dois blocos de acesso, uma passarela e uma torre de sustentação, que deverá eliminar o semáforo localizado em frente a um shopping na BR-316, na tentativa de desafogar o trânsito e garantir a segurança dos mais de 30 mil pedestres que circulam diariamente pelo local.
Segundo a Seurb, há ainda um outro projeto, intitulado ‘Via Expressa’, que pretende ligar a Estrada da Ceasa até a Alça Viária. Mas, para sair do papel, precisa vencer a barreira das brigas políticas entre governo e município. “Não pode acontecer como no caso da João Paulo II”, diz a assessoria da Seub. “Conforme acordado, concluímos o prolongamento até o limite de Belém, mas o governo não deu continuidade à obra e esse também é um agravante para as más condições de tráfego ali no Entroncamento”.
AUDIÊNCIA
No dia 24 de setembro, uma audiência pública na Câmara tratou sobre o trânsito de Belém. Contudo, Ctbel e Seurb - assim como a maioria dos vereadores - não prestigiaram a sessão, que em contrapartida, contou com a participação ativa de blogueiros e twitteiros.
Tiago Paolelli, de 29 anos, foi um dos que participaram da sessão. “É muito conveniente às autoridades fugir de uma situação em que serão questionadas. A condição do trânsito em Belém é fruto também das brigas partidárias, que impedem a continuidade dos projetos, já que eles acabam sendo interrompidos de quatro em quatro anos”, opina o twitteiro. Ele mantém na rede social o perfil @belemtransito, responsável por levar ao ambiente virtual informações sobre o fluxo das principais vias da capital e alternativas para sair do tráfego, 24h por dia. “Os assuntos acerca do trânsito são tocados informalmente de maneira rotineira, então pensei: se há rádios exclusivas para falar do trânsito em outras cidades, porque não haver um perfil no Twitter, que é uma ferramenta exclusiva para a informação, sobre esse tema, aqui em Belém?” conta Tiago.
Durante a audiência, além dele, os que se manifestaram levaram propostas que passaram pela educação para o trânsito desde a pré-escola, construção de passarelas para pedestres, ciclovias, desobstrução das calçadas, substituição dos ônibus sucateados, transporte público integrado em toda a RMB, metrô de superfície, fiscalização efetiva e atuação integrada da administração pública. Resta saber se tantas sugestões sairão do papel.
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